O PROBLEMA DA CRIMINALIDADE JUVENIL E INFANTIL

 

Do livro: “Novos rumos para a educação” de Huberto Rohden.

        Tenho diante de mim o livro Daemon-Stadt (Cidade-Demônio) do Dr. Kurt Gauger, médico, psiquiatra e filósofo germânico, obra em que o autor, à luz de abundantes fatos recentes, estuda o alarmante problema da criminalidade juvenil, e até infantil, na Alemanha e em outros países, no período que seguiu às duas guerras mundiais. Chega à conclusão de que a presente geração, produto de gerações anteriores e herdeira de ideologias funestas, perdeu a noção da responsabilidade ética, porque perdeu a noção de ser parte integrante do grande TODO, seja o TODO imediato da humanidade, seja o TODO longínquo do Universo como tal. Uma criança de 12 anos mata seu pai com um tiro de revólver; interrogada pelo motivo do crime, responde cinicamente: “Matei porque quis”. Não tem o menor remorso do seu ato, diz, porque toda pessoa tem o direito de fazer aquilo que acha interessante.

         Em última análise, quem perde a visão de um TODO maior de quem ele faz parte e que tem de respeitar, perde necessariamente a noção da ética, da obrigação, do dever moral, porque a noção da ética se baseia na consciência de que eu sou parte de um TODO, e que esta parte tem certas obrigações naturais e indeclináveis para com o TODO, que tem direitos reais sobre mim.

        Como se vê, o problema da criminalidade afeta o problema da ética, e este radica no problema da metafísica, a questão da íntima natureza humana. “Que é o homem? de onde vem? para onde vai? por que está aqui na terra?” – não é possível dar base sólida à ética sem responder, satisfatoriamente, a essas perguntas fundamentais da vida.

        Necessitamos, não só de professores eruditos para instruir os seus alunos – necessitamos, sobretudo, de mestres de caráter que, com a sua própria vida e vivência, deem a seus discípulos o exemplo da dignidade do homem.

        No citado livro Daemon-Stadt, págs. 122-124, reproduz o Dr. Kurt Gauger a impressionante carta de um jovem delinquente que, à sombra da penitenciária, escreve uma espécie de exame de consciência para os “homens honestos” do mundo. Diz o jovem delinquente:

       Por que vós sois fracos no bem, por isto nos destes o nome de fortes no mal – e com isto condenais uma geração contra a qual pecastes – porque sois fracos.

        Nós vos concedemos dois decênios para nos fazerdes fortes – fortes no amor, fortes na boa vontade – vós, porém, nos fizestes fortes no mal, porque sois fracos no bem.

        Não nos indicastes caminho algum que tivesse sentido, porque vós mesmos ignorais esse caminho e vos descuidastes de procurá-lo – porque sois fracos. Vosso vacilante ‘não’ assumia atitude incerta diante das coisas proibidas; nós demos uns gritos – e vós retirastes o vosso ‘não’ e dissestes ‘sim’, a fim de poupardes os vossos nervos fracos. E a isto chamastes ‘amor’.

        Porque sois fracos, por isto comprastes de nós o vosso sossego. – Quando nós éramos pequenos, nos dáveis dinheiro para irmos ao cinema ou comprarmos sorvete; com isto prestastes um serviço não a nós, mas sim à vossa comodidade – porque sois fracos. Fracos no amor, fracos na paciência, fracos na esperança, fracos na fé. Nós somos fortes no mal – mas as nossas almas têm apenas metade da nossa idade.

        Nós fazemos barulho para que não tenhamos de chorar por todas aquelas coisas que deixastes de nos ensinar. Sabemos ler e contar; sabemos quantos estames há nesta ou naquela flor, sabemos como vivem as raposas e conhecemos as estruturas de um pé de capim – aprendemos a ficar quietos nos bancos de escola e apontar o dedo, a fim de contarmos coisas sobre raposas e rosas silvestres – mas não nos ensinastes como enfrentarmos a vida.

        Estaríamos até dispostos a crer em Deus, num Deus infinitamente forte que tudo compreendesse e de nós esperasse que fôssemos bons – mas não nos mostrastes um só homem que fosse bom pelo fato de crer em Deus. Ganhastes muito dinheiro com serviços religiosos e murmurastes orações segundo a velha rotina.

       Sr. Policial põe de parte o teu cassetete e tua pistola! Dize-nos antes o que nos interessa saber: é verdade que amas a ordem pública a que serves? Ou não será que amas o direito que tens ao teu ordenado e à tua aposentadoria?

Senhor Ministro! Mostra-nos se é forte como homem! Quantas obras boas praticas tu, como cristão, às ocultas?

Será que nós não somos as caricaturas da vossa existência toda feita de mentiras?

        Nós somos desordeiros públicos e fazemos muito barulho – vós, porém, lutais às ocultas, um contra o outro; estrangulai-vos comercialmente e armais intrigas para conquistardes posições mais rendosas.

           Em vez de nos ameaçardes com bastões de borracha, colocai-nos face a face com homens de verdade, que nos mostrem qual é o caminho certo, não com palavras, mas com a sua vida.

          Mas ai! Que vós sois fracos no bem! Os que são fortes no bem vão para a mata virgem e curam os negros da África – porque eles vos desprezam, assim como nós vos desprezamos. Porque vós sois fracos no bem – e nós somos fracos no mal.

Mamãe, vamos rezar! Porque esses homens fracos estão armados de pistolas!

* **

Como invalidar esse tremendo exame de consciência que um criminoso institui com os ‘homens honestos’ da sociedade, os que são ‘fracos no bem’?

* * *

NOTA:

Este livro contém uma série de palestras que Rohden fez no auditório do Ministério da Educação em 1958 no Rio de Janeiro.

 

 

2 responses to this post.

  1. Posted by Sérgio Cavalini on 21/07/2017 at 23:38

    E os homens fracos no bem continuam nas ruas, nas empresas, nas igrejas, no poder público…60 anos depois, tão antigo e tão atual.

    Responder

  2. Verdade Sérgio, a humanidade necessita de homens fortes no bem.

    Responder

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