MÃE E FILHO

HONRA AO MÉRITO

HUBERTO ROHDEN, AOS 28 ANOS – ANO 1922 – JÁ TALENTOSO ESCRITOR.

Transcrição de um capítulo do livro inédito: “HONRA AO MÉRITO” – vultos e fatos dos tempos de colégio.

Edição do Centro da Boa imprensa em Petrópolis.

Enviado pela aluna de Rohden Sira da Silva de Curitiba.

 O livrinho tem 192 páginas. O herói Arthur é um dos merecedores da honra ao mérito – descrita no final do livro. A mãe ali na plateia assistiu a cerimônia com grande alegria.

2. MÃE E FILHO.

        — Pronto mamãe! — exclamou Arthur, entrando na salinha, em que se achava reclinada numa cadeira de braços, uma senhora de meia idade e aspecto doentio. — Trago tudo na pontinha da língua — acrescentou com ar jovial, quase triunfante.

Sorriu a enferma com um sorriso suave e leve como os últimos clarões do arrebol, quando já o crepúsculo avança lúgubre, para envolver todo nas trevas da noite.

         — Quanto tempo levará a vossa festinha, no colégio? — perguntou com voz débil, porém melodiosa.

         — Calculo que umas três a quatro horas. Começará ás seis em ponto.

         — Espero, pois, que estejas de volta, aí pelas 10 horas.

        — De certo. Que bom seria se mamãe também fosse! — disse Arthur em tom quase suplicante. —A nossa orquestra goza de muita fama em toda esta cidade, e vai executar hoje umas peças sublimes, ao que me consta.   Representamos ainda, e pela primeira vez, o grandioso drama, “Garcia Moreno”, uma maravilha, mamãe…

       — Por mais que queira não me é possível acompanhar-te, meu filho.   Sinto-me tão abatida de corpo, depois daquela moléstia. . . Acredita-me, Arthur, que folgaria imenso ver-te representar e cantar; o P. Leopoldo me disse que eras ótimo ator e não menos bom solista.   Mas, enfim. . . como Deus for servido . . .

     — Faço o papel de  Gabrielito,   filho   de Garcia— disse o estudante com visível entusiasmo, ajuntando:  Ah,  quem me  dera ser um Garcia Moreno! . .

        Os olhos do ardoroso terceiranista assumiram um fulgor estranho, misterioso, como se dentro daquele peito lavrasse alguma chama oculta, refletindo-se no límpido cristal daqueles grandes olhos cor de castanha.

         — Um Garcia Moreno? — repetiu a mãe, dando uma inflexão singular à voz.

         — Sim, tão herói e tão santo como ele. . .

         — E sucumbir também como ele, sob o punhal do tirano? Volveu a doente, observando a fisionomia do filho.

       — Se tivesse vivido como  Garcia Moreno, se me dava de morrer também como ele, ainda mais numa primeira sexta-feira, como pouco depois  de ter recebido a Santa Comunhão…

       — Filho da minha alma! — segredou a enferma apertando efusivamente de encontro ao peito a mão do filho único e bem amado. E, depois de ligeira meditação, prosseguiu, sem poder ocultar vaga tristeza na voz: — És digno de teus pais. O teu avô caiu vítima do dever, nos campos do Paraguai… Ah! Esse assalto de Curupaity. . . Quanto sangue e quantas lágrimas não nos têm custado!…

       — Mas, também cobria de glórias a esquadra brasileira, sob o comando do valoroso visconde de Inhaúma — volveu Arthur…

        — Glória? Sim, a mocidade tem brios. Também eu, naqueles tempos, experimentava certa ufania em pensar que era filha dum bravo coronel que se imolou nas aras da Pátria. Mas, desde a morte de teu pai. . . Naquela horrenda catástrofe de comboio… A vida já não tem para mim atrativos, a não seres tu, meu Arthur, e só tu! Ah, como te pareces com ele…

        E embebeu profundamente o olhar naquelas faces rosadas sobre uma tez moreno-clara; aquela fronte pura, espaçosa, levemente abaulada e emoldurada em basta cabeleira cor da noite; aqueles olhos e os gestos davam o retrato fiel do infeliz esposo da viúva Campos.                                                        Ergueu  a vista úmida para uma grande fotografia suspensa na parede frontal. Enquadrado em larga moldura de louro envernizado, via-se no retrato a garbosa figura dum jovem oficial do exército, em uniforme de gala, e a seu lado uma formosa donzela de estatura meã, em que o observador atento descobria sem custo a mãe de Arthur Campos.

         Felizes, mas muito poucos haviam sido os dias dos casados; quatro anos apenas.

        O primeiro fruto daquela abençoada união — um lindo bambino — ajuntara-se em breve no céu aos seus irmãozinhos angélicos.  Veio depois o pequeno Arthur, que não teve a felicidade de conhecer seu pai; perecera este com diversos companheiros, nos precipícios da Serra do Mar paranaense, esmagado debaixo dos destroços da locomotiva e de vagões descarrilados.  Desde aquele infausto dia, os lábios da viúva Campos não souberam mais o que fosse um sorriso. . .

        Passaram-se os anos.                  

       À jovem e formosa viúva rejeitaram as mais lisonjeiras perspectivas, por amor ao inolvidável esposo e ao seu Arthurzinho. Em torno da sua boca foram-se formando aos poucos uns vincos de acerba dor, e uns fiozinhos de prata se introduziram imperceptivelmente na seda preta da farta cabeleira. Os olhos, porém — esses olhos que Arthur herdara — continuaram lúcidos e brilhantes como na mocidade, e a fronte ainda se conservava sem rugas.

          Assim foi dia galgando, silenciosa e resignada, o Calvário do grande sacrifício da sua vida…

       — Vai depressa, meu filho, que são quase 6 horas! — disse subitamente, como se despertasse dum doloroso sonho.   Disse-o, talvez para  disfarçar as lágrimas indiscretas que lhe assomavam aos olhos.   Arthur, aliás, muito observador, desta vez em nada reparou; trazia o espírito por demais ocupado com o drama ou, ainda mais, com o solo que tinha de cantar.

        — Até à volta, mamãe! — disse, enquanto se dispunha a deixar a sala.

        — Até breve, meu filho.   Diverte-te bem; olha, faze o favor de chamar a Biloca.

 

* * *

 Minutos depois, lá se ia o inteligente estudante, rumo do colégio, trauteando à meia-voz o seu solo de ali a pouco. Estava com um secreto receio, e pigarreava amiúde, para verificar se tinha a laringe bem em ordem, como se já estivesse no palco.

       Cursava então o terceiro ano no Colégio Santa Cruz em R., tirando invariavelmente o prêmio de honra nas duas ou três matérias principais do programa.

        Mas, se os seus brilhantes dotes intelectuais, o exterior simpático e maneiras naturalmente distintas lhe haviam granjeado um vasto círculo de admiradores, não lhe faltavam, por outro lado, inimigos e invejosos a olharem de esguelha o importuno rival que os eclipsava.

 

* * *

 

        Nessa tarde de Sete de Setembro, ao atravessar Arthur Campos a extensa Rua dos Voluntários, em   direção ao imponente edifício embandeirado, não suspeitava ele, por certo, que essa noite viria a ser para ele de notáveis consequências.

OBRIGADA A TODOS QUE VISITAM, LEEM E COMENTAM ESTE BLOG.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: