FRANCISCO, O POETA CRISTÃO DE ASSIS

Francisco

CALAR AS GRANDEZAS

Do livro “De Alma para Alma”

Huberto Rohden

Perguntaste-me, amigo, se eu ia escrever um livro sobre o poeta cristão de Assis…

Chaga dolente me reabriu no espírito essa pergunta…

Ante os meus olhos surgiu toda a potência do meu querer — e toda a insuficiência do meu poder…

Eu, é verdade, já cometi delitos dessa natureza — escrevendo sobre os heróis do espírito…

Mas à última página, foi sempre maior o remorso que a satisfação…

Espetada no museu a minha borboleta — via eu que perdera os mais belos encantos…

Grandezas da alma não se podem dizer — só se podem calar…

Livro sobre as maravilhas divinas no homem — só devem constar de reticências e páginas em branco…

Como se pode tocar em tão delicado cristal — sem o quebrar?…

Como se pode colher uma flor — sem a matar?…

Como se pode apanhar borboleta — sem lhe tirar das asas o finíssimo pó?…

Como se pode recolher das folhas, com grosseira colher de pau, as pérolas do orvalho noturno?…

Como poderia eu assoalhar em praça pública a vida íntima duma alma?…

Como apregoar nas ruas os segredos anônimos dum coração?…

Como escancarar à devassa de olhos impuros o sancta sanctorum do templo de Deus?…

Como poderia eu dizer a homens mortais o que o santo nem soube dizer ao Deus imortal?…

Não, meu amigo, não posso escrever sobre as grandezas do poeta cristão de Assis…

Prefiro admirar em plena liberdade esse sopro de Deus a analisá-lo no laboratório…

Em vez de falar — vou calar as grandezas do herói…

Assim, se não acerto em dizer o que ele é — não digo ao menos o que não é…

Sobre o papel do silêncio, com a tinta das reticências — escreverei a biografia do grande anônimo de Assis…

Ou, se quiseres, lançarei ao mundo uns fragmentos amorfos, com os quais poderás arquitetar o que entenderes…

Amor e alegria, entusiasmo e serenidade, sofrimento risonho e espontânea renúncia — e tudo isto aureolado de espiritual leveza e jubilosa felicidade — eis as pedras para o edifício!…

Não o levantarei, para que o possas construir — segundo o teu plano.

Não se prendem raios solares — em gaiolas de ferro…

Não sei vazar em períodos corretos — a poesia da Natureza…

Não sei definir com silogismos — uma alma ébria de Deus…

Nada disto sei — só sei calar grandezas humanas.

Porque toda grandeza é anônima.

Como anônimo é Deus.

O Inefável…

4 responses to this post.

  1. Posted by Sergio Cavalini on 06/08/2013 at 11:43

    Iris,

    É possível sentir em Assis, na Umbria, vibrações semelhantes a que sentimos no ashram da Alvorada, ainda que mais de 800 anos depois da partida física de Francisco. O silêncio fecundo da capela de San Damiano na colina, uma atmosfera de paz indiscritível em plena natureza. Nos sentimos mais puros, mais humanos e mais divinos.

    Responder

    • Posso imaginar Sérgio. Fica aqui uma sugestão: organizarmos uma caminhada do Km 67 da Anhanguera até o Ashram. Lá fazermos uma meditação. Assim não precisamos ir tão longe.
      Quem quiser aderir nos escreva.

      Responder

  2. Posted by Sergio Cavalini on 07/08/2013 at 14:08

    Combinado, Iris! Basta acertarmos a data.

    Responder

  3. Pode ser numa dia da semana à sua escolha?

    Responder

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