FRUSTRAÇÃO

frustrada

TRECHO DA PALESTRA LOGOTERAPIA  POR HUBERTO ROHDEN

CARTA DE UMA SENHORA A VIKTOR FRANKL

Publicada no livro: “Teoria e terapia das neuroses”

                “Meu marido saiu no seu carro (sozinho) como faz todas as noites. Eu a bem dizer tenho pena dele, ele precisa desta farra. Agora que o serviço dele é mais leve e ele está livre às 5h da tarde, o desassossego o impele para fora de casa. Tenho um belo apartamento, um rádio (naquele tempo ainda não tinha TV), mas não temos nada a comunicar um ao outro (é triste um casal assim). E agora que tudo acabou em rotina velha estou diante de um grande vácuo (ela se sente num vácuo por causa dele – ela pensa). Livros não interessam ao meu marido a não ser romances criminais e aventureiros, mas essas coisas a gente vê melhor no cinema, o que nos dispensa da leitura. E diante dos programas de rádio, a gente dorme. Não estou com vontade de bancar a mulher incompreendida para me tornar interessante”.

COMENTÁRIO

                Muitos gostam de tornar interessante lamentando as suas tragédias, mas esta senhora não quer bancar a mulher incompreendida para se tornar interessante.

Que é frustração? Frustrar quer dizer em latim, despedaçar. Frustrum quer dizer pedaço em latim, fragmento. Quando alguém se sente fragmentado, despedaçado, então ele está frustrado. Quem está despedaçado, fragmentado não sente mais a sua unidade. Ele não é uma coisa, ele é uma porção de coisa… Caindo para cá e caindo para lá. Isto é frustração, despedaçamento. Traduzindo frustração que é palavra latina, devemos fazer fragmentação, falta de unidade. E quem não sente mais a sua unidade da sua natureza pelo centro está sempre fragmentado.  Está sempre mais ou menos frustrado. O mundo está cheio de frustrados ou semifrustrados, porque não sentem mais a sua unidade. Eles não são um, eles são muitos. Eles são uma porção de coisas. Eles estão coisificados e por isso estão fragmentados. Quando alguém se considera como um objeto, como uma coisa, como um ego está em vésperas de frustração.

É importante evitar uma identificação com o ego porque toda identificação com o ego nos leva cedo ou tarde a uma frustração. Esta mulher se sentiu frustrada porque a sua vida não tinha mais sentido. Não tinha mais nenhuma razão de ser: “se meu marido não me dá importância, se ele vai sozinho, ele não me convida nada e não temos nada a nos comunicar, para que eu existo ainda?… Melhor seria o suicídio”. Muitas vezes o suicida se suicida por pura frustração. Ele não vê mais nenhuma razão de ser da sua existência terrestre. “Por que é que eu existo se ninguém me dá importância, se eu sofro de um complexo de inferioridade terrível, que não tenho mais nenhum valor para ninguém, estou sobrando em toda parte”? Se alguém tem a ideia de que ele está sobrando, ninguém precisa dele, ninguém lhe dá importância, está sobrando. Então ele está em véspera de hospício ou de suicídio, ou de inferno perpétuo.

Quando nós dizemos que estamos sobrando e ninguém nos dá importância, nós falamos do nosso ego. Pode alguém não dar importância ao nosso ego, e do nosso Eu ninguém fala nada – só nós sabemos do nosso Eu. Então para perder o complexo de inferioridade, o complexo de frustração, não há nenhum outro remédio, não é mudar de ocupação, não é arranjar admiração da parte dos outros (Ela quer admiração da parte do marido e convite para as suas farras, mas o marido não liga, então ela se sente completamente frustrada no seu ego humano, no seu ego feminino e no seu ego de esposa) – é claro – em todas as periferias como esposa, como seu ser feminino ela se sente frustrada. Não tem mais razão de ser – “para que é que eu estou vivendo aqui? Não tem nenhum valor em mim mesmo”.

Isto é uma ilusão com base no ego.

Então não adianta mudar as coisas do ego. Todo mundo quer mudar as periferias e não resolve nada. Suponhamos que ela tenha conseguido admiração e companhia do marido, ela não teria sido curada realmente. Porque amanhã poderia ocorrer outra espécie de frustração. As frustrações são muitas. Podem ocorrer no casamento. Podem ocorrer também nos negócios. Se alguém sofre uma falência terrível ou perde tudo, então ele se sente profissionalmente frustrado. Ela se sentiu femininamente frustrada, matrimonialmente frustrada. Tudo isto é periferia.  Negócios é periferia, casamento é periferia. Porque ninguém é o outro. Ela não é o marido, ela não é seus filhos, ela não é ninguém a não ser o seu ser. Então a única terapia radical, eficiente e infalível seria mudar a sua ilusão do ego para a verdade do Eu. Mas aqui é que está a grande arte que a maior parte não consegue. Eles querem mudar as circunstâncias, mas não querem mudar a substância. Eles querem mudar os objetos, mas não mudam o seu sujeito. Enquanto não mudar o nosso sujeito, a mudança dos objetos não é uma cura radical. Isto é um paliativo, é uma camuflagem, mas não é uma verdadeira terapia, uma cura radical.

Vocês veem a psicanálise, por exemplo, e a psiquiatria, todos lutam com a periferia, ninguém chega ao centro do Eu. Na psicanálise não há centro, só há periferia. Há coisa mental e emocional. Na psicoterapia não há centro, tudo gira na periferia do ego. Eles querem melhorar as periferias do ego, portanto as técnicas. E quando mudam as técnicas o cliente por algum tempo se sente bem. Parece que está curado da sua frustração e da sua neurose. Mas qualquer dia aparece outras neuroses e outras frustrações, porque a periferia foi mudada para outras periferias, porque ele não mudou da periferia para o centro. Não mudou da ilusão para a verdade. Somente a verdade nos liberta das neuroses e das frustrações. As periferias não nos podem libertar porque elas são ainda ilusões.

4 responses to this post.

  1. A frustração diminui o ser , e escraviza o coração… e o ser só conseguirá a libertação ao aprender lições do tipo perdoar, e recomeçar …Recomeçar é rever seus valores!

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  2. Dona Íris, o caminho -diria- da não ofença caracteriza bem o que Gandhi vivia, com isso, mesmo a ofença no seu mais auto grau por si mesma, caminha distante de quem descobriu que: Jogar a caderneta fora das anotações que o ego gosta de fazer é o melhor caminho para esse brotar para a verdadeira vida dentro do sentido real do que se é pra ser descoberto. Eu sei disso, mas não consigo por enquanto, dá a impressão que tenho que perder tudo para achar… Boa Noite

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  3. Vanderley nosso ego é realmente difícil de ser superado. Temos a vida toda neste constante trabalho interior de luta. Mas, a verdadeira cura de nossas neuroses vem da grande vitória do Eu nesta batalha.

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