QUANDO A ALMA DEIXA O CORPO…

 lethe_lake

Bebi a taça do Lethe – e lá se foram todas as amargas reminiscências do passado e as dolorosas preocupações do futuro”.

Paul Brunton

Do livro “O Caminho da Felicidade” – capítulo: NÃO CREIAS NUMA MORTE REAL

Huberto Rohden

             Assim como o sono não atinge a vida central do nosso Eu, do mesmo modo a morte não afeta a nossa íntima essência, que dá vida aos invólucros externos.

                A alma não é atingida pelo processo da morte.

                Essa hora da grande metamorfose está, geralmente, envolta no véu duma suave semiconsciência crepuscular… Tudo nos parece distante, cada vez mais distante… Tudo vago, longínquo, aéreo… Recuam as paredes do quarto… Perdem-se no espaço os derradeiros sons… Entorpecem as extremidades do corpo… A semiconsciência centraliza-se no coração, no cérebro, últimos redutos da vida material… Por fim, o corpo repousa como um invólucro vazio do inseto deixado pela vida… E, por algum tempo, a alma parece imersa num como sono profundo… Desce sobre ela a noite duma paz imensa, misteriosa, benéfica…

                Quanto tempo durará essa noite de semiconsciência? Ninguém o sabe. Para uns é longa, para outros breve. Depende do modo de vida que alguém levou na terra; depende do conteúdo e da qualidade das nossas experiências atuais. Para uma alma firmemente presa ao corpo físico, à matéria dos sentidos e do mundo, causa essa separação um choque violento, uma espécie de hemorragia interna, de maneira que, por largo tempo, ela não consegue recuperar equilíbrio e suficiente consciência para se orientar e saber o que aconteceu e onde está.

                Para outras almas, já devidamente habituadas ao desapego voluntário da matéria, é breve esse estado de inconsciência parcial, porque não houve choque violento; como São Paulo, podiam dizer em plena vida terrestre “eu morro todos os dias, e é por isto que vivo — mas não sou eu que vivo, o Cristo é que vive em mim”.

                Quando, então, a alma volta a recuperar consciência de si, não sabe ainda que se acha fora do corpo material. O longo hábito de sentir e pensar através da rede dos nervos orgânicos mantém a alma, por algum tempo, na ilusão de sentir e pensar ainda através desses mesmos veículos, já inertes. Mesmo quando contempla o seu corpo imóvel, não se convence desde logo que esse invólucro não seja mais instrumento dela. O homem espiritual, porém, habituado a não se identificar com o seu corpo, durante a vida terrestre, rapidamente se habitua ao novo ambiente e se sente perfeitamente “em casa”. E logo essa alma, levada por um impulso interno, vai em busca de outros seres que tenham afinidade espiritual com ela, porque vê nesses seres seus irmãos, suas irmãs, sua família espiritual. Cessaram os liames do parentesco material; começam a agir as forças da afinidade espiritual, segundo a eterna lei cósmica “semelhante atrai semelhante”.

                E formam-se novos mundos e novas humanidades.

              Quando, pois, vês morrer um dos teus entes queridos, leitor, não te entristeças, não chores desconsolado, não fales em desastre ou catástrofe, não te cubras de luto. Fica em silêncio por algum tempo, abisma-te em ti mesmo, acompanhando com a alma a metamorfose da tua “borboleta”.

7 responses to this post.

  1. Posted by adilson1893 on 19/01/2013 at 17:19

    “O Caminho da Felicidade”! Que livro fantástico!! ahhh se a humanidade descobrisse o valor dessas obras de Rohden!! como o mundo seria melhor!

    Responder

  2. Posted by Álvaro Henrique on 20/01/2013 at 14:31

    Este texto foi integralmente escrito pelo Prof. Rohden, ou só as partes em azul?

    Se não foi, sugiro uma melhor identificação dos autores dos posts publicados, para que não se perca a essência do pensamento de Rohden.

    O texto acima fala de alma que deixa o corpo por ocasião da morte e vai interagir com “outros seres espirituais” por afinidades, num claro viés espírita ou similar.

    A tese da “erraticidade dos espíritos” (ou almas) após a morte física, está em clara contraposição ao evangelho revelado por Jesus, que sempre foi o objeto da busca incansável do Prof. Huberto Rohden.

    Álvaro Henrique.

    Responder

    • Sim Álvaro, só a frase de Paul Brunton, é que foi inserida para justificar a ilustração do mitológico Rio Lethe.
      O capítulo: NÃO CREIAS NUMA MORTE REAL é mais extenso. No entanto, eu só quis a parte que descreve quando a alma deixa o corpo. Se você não tem o livro, vale a pena adquirir.

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      • Posted by Álvaro Henrique on 22/01/2013 at 14:49

        Grato pela resposta.

        Eu perguntei porque este excerto do livro leva a pensar que ele acreditava que após a morte a “alma” saia por ai, consciente e fazendo coisas, interagindo com outros “seres” (seriam outras almas humanas desencarnadas?).

        Essa concepção se parece muito com a doutrina kardecista, que teológicamente está em franca contradição com as revelações dadas pelo próprio Jesus, que constam dos evangelhos no Novo testamento.
        E o prof. Rohden deu-se ao trabalho de traduzi-los com as próprias mãos! – portanto certamente cria neles.
        Dai a minha estranhesa.

        Peço que perdoe a minha aparente indelicadeza, mas minha intenção não é polemizar, mas apenas entender o pensamento do Dr. Huberto Rohden, que eu admiro.

  3. Álvaro, para você enender melhor, leia o texto inteiro no livro “O Caminho da Felicidade”. Está perfeitamente de acordo com o Evangelho de Jesus.

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  4. Quando a Alma deixa o corpo… Estarei falando como minha vó dizia… Ele ainda não desligou desse mundo, já fazem dois dias que o corpo do (fulano) encontra-se em estado de sororóca. Me faz lembrar agora um dizer de Rohden … Um corpo sem alma é um cadáver, uma alma sem corpo é um fantasma.
    Matéria e corpo é só por um período.

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