Á BIOLOGIA DA DOR

                                             (DO LIVRO PORQUE SOFREMOS – 4a EDIÇÃO DE HUBERTO ROHDEN)

            Todo ser vivo, ao menos no presente estágio, se acha sujeito ao sofrimento. É lei da natureza.

            A função biológica da dor é da mais alta relevância, porque está a serviço da conservação e evolução do indivíduo e da espécie. Sendo o ser vivo um conjunto de elementos de cuja harmonia funcional depende a vida e atividade vital, deve o indivíduo zelar solicitamente pela existência e integridade de cada um desses fatores. Para conseguir que o ser vivo cuide eficazmente da existência e integridade dos seus elementos constitutivos é que a Natureza, sempre admirável em suas leis, o dotou da faculdade de sentir dor e prazer, sendo aquela uma advertência de perigo iminente, e este um atestado de funcionamento normal.

            Entretanto, nem a dor nem o prazer limitam a sua missão à simples conservação do indivíduo. Vão além, e, uma vez que a conservação do indivíduo por maior lapso de tempo não é possível sem a perpetuação da espécie, desempenham a dor e o prazer importantíssimo papel na reprodução biológica do ser. Se assim não fosse, não tardaria a vida da espécie a extinguir-se sobre a face da terra com a extinção do indivíduo.

            Toda a lesão orgânica, toda a afecção mórbida, a sede, a fome, a fadiga, provocam no indivíduo uma espécie de dor, impelindo-o a libertar-se do desagradável dessa sensação e contribuindo assim para a existência, saúde e integridade do ser.

            Assim é que, em todo o âmbito da natureza viva, a dor não é um fim, mas tão somente um meio para atingir um fim superior — como também o prazer tem por fim a consecução dum determinado objetivo considerado pelas leis naturais como necessário ou conveniente.

            Nenhum organismo repararia prontamente as lesões sofridas se com o ferimento não experimentasse tal ou qual sensação de dor. Pode esta sensação ser nitidamente consciente nos seres superiores, ao passo que nos organismos inferiores é, talvez, semiconsciente ou subconsciente, segundo o grau que cada ser ocupa na escala hierárquica da vida. Pode percorrer toda a escala das dores, desde a mais intensa até a mais fraca e diluída; mas, de algum modo, ela existe e impele o indivíduo a cuidar de si mesmo.

            Por onde se vê que, mesmo no plano mais primitivo, o sofrimento tem uma função essencialmente positiva, benéfica, salvífica, construtora. Não existe em todo o universo dos seres vivos uma dor de caráter e finalidade negativos, destruidores ou simplesmente passivos.

            Toda dor é uma afirmação — e não uma negação.

            Toda dor está a serviço da vida — e não da morte.

            Toda dor é inimiga da estagnação e do regresso — e amiga da evolução e do aperfeiçoamento.

            Toda dor é construtora — e não demolidora.

            O escopo de toda dor é, em última análise, o prazer, porque este é índice de saúde e integridade vital.

            Dor e prazer são irmãos, e, por mais diversos que pareçam, têm a mesma natureza e a mesma missão a cumprir, missão nobre, positiva, sublime: a defesa da vida em todas as suas formas e manifestações. A dor é a poderosa vanguarda da vida, a vigilante atalaia do mais grandioso fenômeno que sobre este planeta apareceu.

            Impossível seria, não somente a conservação da vida, senão também a evolução da mesma, nos vastos domínios da flora e fauna, se lhe faltassem esses dois fatores: a dor e o prazer. São os dois polos sobre os quais gira toda essa deslumbrante epopeia evolutiva que abrange milhares de séculos e de milênios. A paleontologia descobriu fósseis nas estratificações geológicas dos períodos siluriano e cambriano, que remontam a uns setecentos milhões de anos antes da nossa era. Já nesses tempos pré-históricos existiam, portanto, seres orgânicos: moluscos, trilobitas, corais; e já nessas épocas obscuras imperavam sobre a face da terra esses soberanos da evolução: a dor e o prazer.

Nunca teriam os tempos subsequentes do Trias, Jura e Creta — uns trezentos milhões de anos antes da nossa era — visto os gigantescos sáurios de 25 metros de comprimento e 40 toneladas de peso; nunca teria o período Terciário — cerca de duzentos milhões de anos antes do nosso tempo — produzido essa imensa variedade de peixes, répteis, aves e mamíferos, se não imperassem sobre a terra a dor e o seu sorridente irmão, o prazer.

            Nunca teria o microscópico protozoário unicelular saído do nível primitivo da sua extrema simplicidade, se não fora capaz de sentir algo de agradável e desagradável dentro da gotinha incolor de protoplasma que lhe constitui o corpo gelatinoso.

            Nem jamais teria ao mundo dos peixes e répteis sucedido o das voláteis e dos quadrúpedes, se na criação de órgãos locomotores mais perfeitos não houvesse alguma sensação de prazer suplantando o desprazer.

            Sobre as asas noturnas da dor e as asas diurnas do prazer se processa toda a evolução do mundo orgânico.

*

*    *

            A biologia é, no fundo, uma só para todos os seres vivos, sem excetuar o próprio mundo intelectual e espiritual. Nenhum ser atinge a plenitude da sua evolução senão através das vicissitudes acerbas e deliciosas desses dois fatores de toda a vida.

            Indivíduo que nunca se visse agredido pelo sofrimento, que não fosse obrigado a se defender contra algum inimigo, não sairia jamais da planície da sua primitiva mediocridade e imperfeição. Assim como a corrente elétrica só faz incandescer o fio metálico quando este, devido à sua estreiteza, lhe oferece notável resistência, ao passo que o percorre sem luminosidade alguma quando a ponte metálica é por demais larga e cômoda, assim também nenhum ser aperfeiçoa as suas aptidões e qualidades dormentes quando a vida lhe corre por demais agradável e fácil.

            A maior desgraça para qualquer ser vivo, racional ou irracional, é não ter inimigos, não encontrar dificuldades a vencer, não ter de lutar contra potências adversas.

            “Amar os inimigos”, não é apenas preceito da ética cristã, é também um postulado fundamental da biologia natural, porque os nossos “inimigos” nos são, geralmente, amigos mais verdadeiros do que todos os que nos louvam e adulam, oportuna e inoportunamente. Se nos faltassem esses “queridos inimigos”, esses “inimigos amigos”, seria a nossa vida uma triste estagnação, em vez duma jubilosa evolução.

            Toda a evolução do universo é resultado dessa bendita “inimizade”, dessa luta perene contra potências adversas, dessa necessidade que a vida tem de se afirmar contra poderosos concorrentes e forças alheias.

            Se Darwin afirma que toda evolução é struggle for life (luta pela vida), enuncia, certamente, uma grande verdade, porém uma verdade parcial. A luta do ser vivo não gira simplesmente em torno da questão primitiva de “ser ou não-ser”, de “viver ou morrer”, mas é, acima de tudo, uma questão de evolver, de “ser-melhor”, de “viver mais amplamente”. Para conservar e transmitir a simples e desnuda existência não teria o ser vivo mister essa luta ingente de todos os dias, de todos os séculos e milênios. Mas o que ele quer, consciente ou inconscientemente, é conquistar uma existência melhor, uma vida mais plena, o desdobramento cabal de todas as potências latentes dentro de sua natureza específica. Daí o trabalho, a luta, o sofrimento, em linha ascensional.

            A evolução é, pois, no seu ponto culminante e mais característico, uma luta pró-aperfeiçoamento, um drama milenar pela perfeição integral do ser.

            Verdade é que muitos seres sucumbem nessa luta pela vida e pela perfeição; mas os fortes se tornam mais fortes, e dos mais fortes se originam os fortíssimos, os invencíveis, os que lançam pontes sobre abismos e conduzem o mundo de perfeição em perfeição, consoante a vontade de seu divino Autor e Legislador.

            Sede perfeitos! — é a senha dos seres em evolução.

*

*    *

            Se em todos os setores do universo a dor é fator de vida, progresso e aperfeiçoamento, seria paradoxal admitir que na esfera superior da vida racional e espiritual, houvesse exceção da regra.

            Se, desde o protozoário unicelular até ao mamífero, com seus bilhões de células, a dor é necessária para que assim o ser vivo “entre em sua glória” — não é possível que na vida humana tenha o sofrimento outra finalidade e razão de ser senão esta mesma: de fazer com que o homem “entre em sua glória”, como dizia aquele que mais do que ninguém sofreu e melhor do que nós conhecia a missão do sofrimento aqui no mundo.

            Deus não se contradiz em suas obras. O que nos disse através desses milhões de séculos de evolução orgânica, isto mesmo nos diz também pela razão humana e pelos lábios de seu Filho: que todo o ser susceptível de aperfeiçoamento deve ascender ao cume da perfeição lutando e sofrendo — até atingir a plenitude da sua “glória”.

            Sofre o homem porque não é perfeito — porém perfectível.

            O sofrimento, de perfectível, o torna perfeito.

 

2 responses to this post.

  1. Sem dúvida nenhuma com o que o Prof. Huberto Rohden explica os dois sentimento de prazer e dor.. Resumindo… Serve como alavanca para o crescimento evolutivo do homem para sua auto-realização.
    Tenho um conceito sobre dor no sentido físico e metafísico, então, vou explicar com um fato que ocorreu comigo…
    Algum tempo até recente, minha mãe pediu para comprar pro seu tanquinho -de bater roupa- uma correia, então fiz o que me pediu… Ela reside no sítio, e, por um descuido meu, não entreguei a sua encomenda no mesmo dia, então, depois de dois ou mais dias, ela, voltou a falar da correia, então fui até ao depósito onde trabalho e chegando lá, onde é que está a correia? Procuro aqui e acola e nada… No dia seguinte, comprei uma outra, (resolveu o problema parcial, só não por total, devido a má história que ficou, pois a correia tinha comprado e a mesma desapareceu !..pois minha mãe até duvidou, achando que tinha esquecido de comprar), mas não foi isso a verdade, aí o tempo passou muito e, em um belíssimo momento, encontrei a correia embaixo de uma prateleira e mas do que depressa, peguei-á e fui levar pra minha mãe ver que minha história de perder a correia estava correta, só que no caminho do depósito até a casa dela,(20metros) encontrei com o nosso cão -pastor alemão- uma fera, o que fiz, foi um impulso, joguei a correia do tanquinho e por surpresa, laçou o cão sem nenhum erro, mas o pior estava por vir… O cão ficou furioso, tentou retirar sozinho aquela porcaria em seu pescoço, enfiou sua pata e enrroscou tembém, aí ele já não sonseguia caminhar sem bater com o focinho no chão… foi aí que tive uma “idéia” com a ajuda de um cabo de vassoura, fui tentar tirar para deixar o animal em paz, e não é que deu certo, o que saiu errado foi, assim que libertei-o da correia, ele me cravou a sua presa em minha mão e não largava, faltou somente a espessura da pele da mão pra que sua presa afiada não transpassasse… como saui sangue e doeu… Passei a tarde toda latejando muito…. então veio a noite… Quem diria que conseguia dormir!… Todas as vezes que lembrava do cachorro agarrado em minha mão, o ódio em meu coração fervia e doia ainda mais… Então, por volta das duas da manhã e que fui me acalmando e uma minúscula força começou a brotar em meu ser… mas… você é que está errado… o cão estava só defendendo a sua existencia… Dona Íris Helena, comecei a partir daí, aceitar o cachorro como meu fiel amigo, (vou usar essa palavra por falta de outra..perdoar o Roock -nome do cão- ) por essa sua atitude em demanda da minha… Sabe que nma minha mão começou aparecer um calor prazeroso, uma espécie de satisfação ou retribuição de tanta dor… E quanto mais eu “perdoava o cachorro mais prazer pelo corpo todo se espalhava… Cheguei a comentar com minha irmã – a Rosinha- sobre esta experiência que vivi na madrugada e que por um longo momento até pensei … Morde a outra mão tembém Roock… Ela me repondeu… Você é louco…
    Falar mais um pouco só desta história, hoje, a dor física em mim, tem um significado diferente, consigo hoje, quando aparece algum tipo de dor… então concentro na dor, e ela fica quase insignificante… Posso fazer uma espécie de comparação assim… A dor é forte quando ela está em mim, mas quando entro -em pensamento- dentro da dor ela quase desaparece e depois de algum tempo -não posso avaliar em termos de tic-tac de relógio- quando volto ou quando saio da dor, ela não mais apresenta o seu sintoma qual d”antes, penso que o meu ser agindo de forma liberta, cura mais rápido o problema a que o meu ter querer encontrar solução de fora pra dentro, hoje, consigo compeender mais quando menos entendo -a princípio- tudo que acontece comigo. Se a Senhora conseguiu chegar até aqui nesta minha história, valendo de seu sagrado e precioso tempo Dona Íris, tenho muito a agradecer ao nosso Pai Deus, por permitir de ter encontrado com sua filha querida que é a Senhora. Abraços Shalom. (esse foi o conceito da dor no mundo físico, agora o mentafísico, comentarei em uma próxima)

    Responder

OBRIGADA A TODOS QUE VISITAM, LEEM E COMENTAM ESTE BLOG.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: