ILUMINAÇÃO

(por Wanderlei de M. Trindade em 19/02/2012 –  Araraquara)

Não sei de onde vim

Tampouco sei para onde vou

                                                       Viagem estranha demais para mim

Caminho de luz e trevas sem fim

Vulnerável destino ao que sou!

Passando por várias estradas,

E apreciando várias paisagens

No anseio pela grande chegada

De encontro à minha morada

Atravessei portais de passagem…

 …Portais da liberdade

Do poder do escolher

Não obstante a  ingenuidade

Que pulsa na minha humanidade

Entre o viver e o morrer…

…Portais do divino sentimento

Que ilumina a real direção

Acima de todo o conhecimento

Que a cada momento

Prendia-me na ilusão…

…Portais da dualidade

De inevitáveis experiências

Que conduzem à maturidade

Nas formas das existências

Expandindo minha Consciência.

Hoje não mais preciso saber de onde vim

Nem saber aonde vou ou quem sou

Agora tudo está claro para mim:

Sou sem começo nem fim,

Simplesmente sinto que “Sou”

Nada mais me importa neste momento

Pois não sou mais aquele que pensa

Nem tenho mais qualquer julgamento

Êxtase é o meu sentimento,

Minha eterna recompensa…!

PSICOLOGIA DO CARNAVAL

(Huberto Rohden fala numa entrevista no programa “Xênia” na TV Bandeirantes – anos 70)

            Eu acho que a psicologia do nosso carnaval é essencialmente uma psicologia africana. Eu estive quatro anos na Europa, em grandes países, eu nunca assisti a nenhum carnaval, como nós entendemos para cá do Atlântico. Estive seis anos nos Estados Unidos e não vi carnaval como nós fazemos aqui. Eu sei que há… No leste não há carnaval, mas no sul, Texas, Califórnia, oeste, também há carnaval parecido com o nosso.

            O que é então a psicologia do carnaval? Vejam bem: a nossa civilização ocidental produz muita coisa que nós detestamos, mas infelizmente temos que aguentar. Tudo é proibido: prescrito e proscrito. Entre estes dois extremos navegamos nós. É mandado fazer isto, nós não gostamos, temos que fazer. É proibido fazer isto, mas não gostamos da proibição. Nós estamos entre prescrição e a proscrição 24 horas da nossa vida civilizada. Isto cansa, estressa! Uma estafa uma tensão nervosa deste extremo de nossa vida civilizada e temos saudade de outra vida de que infelizmente não podemos viver.

            Então vêm os dias de carnaval e dizemos: vamos jogar fora tudo que é prescrito e proscrito e vamos cair no subconsciente da natureza pura. E lá nos largamos para o irracionalismo absoluto. Podemos cometer todas as loucuras. Porque tudo é permitido e nada é proibido. Então nós caímos neste subconsciente. Quer dizer que a psicologia do carnaval é uma queda do egoconsciente para o inconsciente.

            Freud diria que caímos do ego para o id. O id (palavra latina) ele chama o instinto da natureza pura. Caímos do egoconsciente para o id do inconsciente. Isto propriamente é uma necessidade de nossa civilização. E se nós em vez de procurarmos relaxação, desentesamento do nosso arco, terrivelmente entesado, tenso; se nós procurássemos um desentesamento, um relaxamento, um alívio, uma neutralização de nossa tensão nervosa para cima, em vez de ir para baixo… Se nós conseguíssemos encontrar um alívio para cima deste egoconsciente diário, não seria muito melhor?

            Eu verifiquei: certas zonas da Europa que têm 2 500 anos de cultura, e nós para cá do Atlântico temos apenas 500 anos de cultura, e no oriente 7000 anos de cultura (vejam bem no oriente 7000 anos, na Europa 2500 e nós para cá do Atlântico 500 anos de cultura).

            Se nós em vez de cairmos no subconsciente para o nosso relaxamento subirmos ao supraconsciente, como diria Freud, não seria também um alívio, um relaxamento, uma relaxação da nossa tensão nervosa de cada dia?

            Não é necessário ser espiritual ou místico como muitos pensam. A Índia só fala no supraconsciente quando entra em samadi, em êxtase, mas há outro supraconsciente, uma sublimação da nossa vida diária detestada de cada dia. A natureza não é uma sublimação, não só a natureza subconsciente, mas há uma natureza supraconsciente também.

            Aliás, a moderna psicologia desde Young já entrou nessa zona da natureza supraconsciente em vez da natureza puramente subconsciente. Freud só falava da natureza subconsciente do id, já os discípulos dele, pelo menos Young e outros já falam de uma natureza puramente supraconsciente – que também seria um alívio para o nosso querido ego diário.

            Mas isto seria outro tipo de carnaval. O nosso tipo de carnaval ainda é uma crença para o subconsciente da irracionalidade absoluta, da loucura total. Nós encontramos alívio quando renunciamos ao nosso consciente humano para baixo e não para cima.

            Eu sei que os povos mais adiantados já descobriram um meio de relaxação da nossa tensão nervosa não para baixo, mas subindo. Mas isto seria uma espécie de carnaval. Mas um carnaval muito diferente daquilo que nós entendemos por carnaval.      O nosso carnaval é essencialmente africano. Quanto mais africanizados são os países, mais carnavalescos eles são no sentido de subconsciente para baixo. Porque a África é essencialmente o continente do subconsciente. Tudo que trata do subconsciente é africano. Vocês já perceberam. O subconsciente domina a África, e mesmo as republiquetas que ultimamente se formaram, nunca chegarão ao consciente europeu, ficarão sempre no subconsciente africano.

            A polêmica é: trata-se de preconceito? Rohden explica que cada país tem a sua tradição, egrégora. Há uma alma de cada país que predomina, não é um presidente ou ditador que determina a alma de um povo. A Índia de hoje não é a Índia, e a Alemanha de hoje não é verdadeira Alemanha. Aqui está uma egrégora, uma alma que está para além dos bastidores do cenário histórico. A verdadeira alma de um país não é aquilo que fulano ou cicrano fizeram deste país. Há uma atmosfera nacional de cada país. Não é outro presidente ou outro ditador – não é verdade.

            Eu estou vendo a África somente subconsciente porque tudo que entrou da África para cá gira num heliotropismo subconsciente. Será que eles vão sair desta escravidão, desta colonização?

NOSSO MESTRE

          Em 1939, por coincidência ano que o mundo iniciava a 2ª grande guerra, foi adotado oficialmente como livro de leitura nas escolas do Estado do Ceará o livro “Nosso Mestre”. É a vida de Jesus Cristo contada às crianças brasileiras, com palavras textuais dos quatro Evangelistas. Vinha de encontro aos reclamos da consciência cristã do povo; era preciso a adoção de um livro ou compêndio didático, vazado nos ensinamentos e nos textos evangélicos.

                Diz Rohden: “era um grande passo. O Evangelho adotado oficialmente como livro de leitura em estabelecimentos públicos. Mesmo que os pequenos leitores não compreendessem ainda o alcance daquela filosofia divina, o certo é que, mesmo assim, lhes seria de efeito salutar. Absorveriam dia a dia, aqueles fluidos divinos – com perdão da palavra – vivendo numa atmosfera elevada, saturando o subconsciente com elementos que, mais tarde, nas lutas da vida, se tornariam conscientes e poderosas garantias de vitoria espiritual”.

                Não muito depois os estados do Amazonas, da Bahia e do Rio Grande do Sul também adotaram “Nosso Mestre” como livro de leitura nas escolas primárias. Diversos outros estados estavam cogitando imitar o exemplo nordestino, mas houve reação e intrigas de pessoas influentes que sustaram essa alvissareira marcha de espiritualidade evangélica.

                Hoje as escolas públicas tentam implantar o ensino religioso nas escolas. Não é uma tarefa fácil, pois apesar do Brasil ser um país cristão, há enorme diversidade de seitas. Não é possível mais ensinar uma religião católica, como em outros tempos. Deveria sim, haver  acordo entre educadores para um ecumenismo. Ora, a vida de Jesus é um fato histórico que faz parte dos livros de história geral. Importante motivação para conhecer a geografia dos atuais países do oriente. Vida que deve ser contada sem parcialidade, sem entrar em rituais e práticas desta ou daquela igreja.

                Convém ressaltar que um professor bem direcionado pode introduzir Deus em qualquer disciplina que lecione. Mesmo que seja ateu, mas, tenha ética, pode guiar seus educandos, encaminhando-os para a vida. A criança e o adolescente estão em fase de formação de caráter e é dever das gerações mais velhas encaminhar o destino das mais novas. Poderia sim, haver aulas específicas de religião com educadores voluntários, que descubram a alegria de se doar por uma bela causa.  Por que tanto segredo sobre a maior história de todos os tempos?

                Rohden conta em suas palestras que na época de Jesus não havia analfabetos entre o povo judeu. Todos tinham que saber ler para estudar os textos sacros do Antigo Testamento. Se esta moda pega hoje, resolveremos o problema do analfabetismo que tanto preocupa o governo do nosso país.

                Tenho a 5ª edição do livro publicado em 1962 pela livraria Freitas Bastos. No momento inicio uma versão virtual para constar da Memória Rohden; e com a ajuda de Deus e dos leitores de Huberto Rohden haveremos de editá-lo pela Casa Editora Alvorada idealizada pelo autor.

                Gostaria de encontrar a primeira edição com uma capa do pintor J. Carlos, que criou um primor de profundo e sugestivo colorido: Jesus mostrando o caminho da vida a duas crianças – menino e menina. Alguém pode arrumar uma foto que seja?

          Educadores, autoeducandos, pais e condutores de novas gerações, mobilizemo-nos começando com o primeiro passo: meditação e ação!

QUEM SOU EU?

DO LIVRO “DIAS DE GRANDE PAZ” – de Mouni Sadhu

(Tradução de Huberto Rohden – editora Pensamento)

CAPÍTULO XIV

A TÉCNICA DA VICHARA

             As COISAS mais simples são, às vezes, as mais difíceis de alcançar.

            Quando tentamos excluir todos os caprichos e fantasias de nossa mente irrequieta e concentrar-nos em algum alvo escolhido, definido, ela luta desesperadamente a fim de resistir ao controle. Depende de nossa vontade sermos vencedores ou vencidos nesse combate. Descobri quem é o criador dos pensamentos –e a meta estará alcançada. Tal é a verdadeira Realização. Mas isto é demasiadamente místico e para compreendê-lo é necessário esforço implacável. Comecei a praticar a Vichara alguns anos antes de encontrar Maharishi, e o método, de acordo com os seus ensinamentos, é o seguinte:

            Mergulhamos na meditação com a impressão clara em nossa mente de que o Eu Real não pode ser nenhuma coisa transitória, tal como o corpo, as emoções e a mente. Quando isso estiver firmemente estabelecido, se nenhuma dúvida existir na consciência, tentaremos então preencher todos os momentos possíveis com a pergunta: “Quem sou eu?” E, quando algum outro pensamento penetrar na mente, nós o abateremos com a Vichara.. Quanto mais perseverarmos, melhor será o resultado. A mente inquieta começa a abandonar a luta. Substituindo-se cada pensamento que se aproxima pela mágica Vichara, os períodos de quietude absoluta da mente vão-se tornando mais longos. A princípio, será apenas por alguns segundos. Com a prática constante virão instantes de paz imperturbável. É muito importante compreender e lembrar o que mais influiu para o alcance dessa paz, na mente. Não posso descrever esse processo em minha consciência, porque está acima e além da atividade da mente, e não pode, portanto, ser expresso em palavras, que pertencem ao campo da mente. Mas o estudante sério terá a mesma experiência.

            Em qualquer lugar onde eu me encontrasse, Vichara estava comigo, na rua, nos trens e bondes, e sempre que minha mente não estivesse empenhada em alguma atividade necessária.

            Durante os primeiros meses, eu fazia as perguntas contando-as: “Quem sou eu?” (um), “Quem sou eu?” (dois), etc. Quando as circunstâncias me obrigavam a interromper o trabalho, anotava o número na memória, ou, se a interrupção era longa, escrevia-o num pedaço de papel que levava no bolso para esse fim. Nos primeiros dias a contagem maior era mil. Mais tarde, consegui sete mil e até maior número tornou-se fácil. Quando aprendi a preencher todos os momentos com Vichara, com exceção dos intervalos para falar ou alguma ocupação mental obrigatória, a contagem foi considerada desnecessária, pois então a mente tinha aprendido a lembrar a Vichara automaticamente. A parte importante não era repetir Vichara, mentalmente, e sim saturar cada pergunta de um desejo intenso (sem palavras) de conhecer “Quem sou eu?”.

            E os resultados eram: Paz da mente e o poder de utilizá-la à vontade como uma força separada do indivíduo “Eu”. A maioria dos homens crê, em sua ignorância, que seu corpo, suas emoções e sua mente constituem ele mesmo. O discípulo instruído por um Mestre sobrepõe-se a essa ilusão. E esse é o ponto de partida de seu desenvolvimento espiritual, sendo essa condição sine qua non para seu progresso no caminho. Sob o domínio da mente o homem é um escravo. A Realização não é possível para os que são escravos da mente ou dos sentidos.

            O aspecto espiritual de Vichara é claro. Ao praticá-la estareis buscando vossa legítima herança, tendo como alvo a verdadeira fonte da vida. Outras experiências possibilitam pela prática da pergunta “Quem sou eu?” são dadas em outros capítulos deste livro. O problema todo da Vida está envolto na Vichara.. Todas as religiões e todos os Mestres espirituais afirmam que a vida em sua essência é eterna e indestrutível. “Mas quê é essa vida?

            Maharishi revela, e seu discípulo compreende que a vida eterna nada mais é do que Consciência Ininterrupta.

            Alcançar esse estado significa alcançar a imortalidade do espírito, a Realidade. Essa é a meta da aspiração suprema. Não há outra. Meditai sobre isto, e a Verdade se tornará clara, mesmo para a mente externa.

            Tal é o céu prometido aos justos e aos santos, do qual nos falou Cristo. Para eles não há mais morte. E como são claras, então, as palavras dos grandes Mestres da Humanidade!

            Sob outro aspecto, é claro que, para o ser humano não desenvolvido, há e deve haver interrupções periódicas na consciência, aliadas a sofrimentos e medo da morte.

            Se o nível de consciência no homem não transcende o da mente (e isso se dá com a maioria dos homens), então esse próprio fator implica em encarnações na matéria (Maya) e morte, conhecida como transição em formas diferentes, acompanhadas de trevas temporárias inevitáveis e vácuos na consciência. Mas quando nossa consciência alcança o campo supramental, o reino do perene e imutável Espírito-Eu, a Realidade eterna, então a morte é sobrepujada simplesmente e já não existe. Agora pode ser compreendida a verdade das palavras do Grande Vidente quando nega a reencarnação no reino do espírito, mas por outro lado fala nela como fato estabelecido. Desse ponto de vista, morte e reencarnação são ambas apenas ilusões que não atingem o Eu Real, tal como nosso corpo não é afetado pelas mudanças de roupa. A Vichara lança luz sobre todos os caminhos.

FEVEREIRO

UMA PÁGINA DO TAO TE KING – Tradução de Huberto Rohden

 

            O PODER DA VIDA SILENCIOSA

            Capítulo 52

 Tao é o seio materno do Universo.

Quem conhece sua mãe, sente-se filho seu.

Quem se conhece como filho, vive a vida de sua mãe,

Nem vê detrimento na morte.

Quem refreia os seus sentidos

E conserva as suas forças,

Não se esgota.

Mas quem se desgasta,

Quem se dissipa e dispersa,

Esse vive em vão.

Quem tem a consciência de ser apenas uma centelha,

Esse é iluminado.

Quem em seu devir,

Permanece maleável e flexível,

Esse é forte.

Quem, assim iluminado, retorna

À origem da luz,

Esse não sucumbe à morte,

É imortal.

Quem vive na essência

Não se prende a nenhuma aparência.

(nota: Conferindo os originais que guardo como documento histórico verifiquei que a frase em negrito acima não consta das edições desta bela  tradução de Huberto Rohden).

CONVERSÃO DE SÃO PAULO

Hoje, aniversário da maior metrópole do Brasil, a cristandade comemora a conversão de São Paulo, o grande apóstolo que deu nome à cidade.

Não conheço melhor descrição deste fato do que estas páginas de Huberto Rohden no seu livro: “Paulo de Tarso”.

Às Portas de Damasco

(At. 9, l ss; cf. At. 22, 5, ss; 26, 12 ss; l Cr.

15,7; 9, 1; 2 Cr. 4,6; Gl l, 12, 15 s; Ef. 3, 3;

Fp. 3, 12; Tm. 1,9)

             Corria o ano 34 ou 35 da nossa era.

            Meio-dia.

            Espessa nuvem de poeira se levanta na extensa planície da Síria, limitada, mais além, pelas fraldas do Antilíbano.

            Ao longe aparecem, por entre verdejantes pomares e tamareiras, umas cúpulas brancas, uma floresta de esguios minaretes; grupos maiores e menores de casas se avistam.

            Damasco!

            A fulminante caravana estimula as cavalgaduras. Velozes deslizam sobre as brancas areias as sombras fugazes dos camelos.

            À frente de todos, um homem em pleno vigor da idade. De estatura média e compleição franzina, domina todos os mais com a potência do seu espírito e o vigor da sua vontade. Vem munido de documentos do Sinédrio; está autorizado a prender todos os adeptos do Crucificado, homens, mulheres e crianças, que em Damasco encontrar. Organizara-se em Jerusalém uma espécie de “tribunal de inquisição”, que tinha por fim reprimir a crescente influência dos “nazarenos”, e Saulo, o mais ardoroso defensor das tradições paternas, fora  investido do cargo de “inquisidor-mor”. Tinha carta branca. Podia invadir as casas, de dia e de noite, dar buscas e devassas, empregar torturas e instrumentos de suplício, que não faltavam nos subterrâneos das sinagogas (At. 26,11). Flagelações com “40 golpes menos l” estavam na ordem do dia.

            Os cárceres de Jerusalém regurgitavam de adeptos do Nazareno. Se ainda existiam na capital, discípulos do Crucificado, viviam às ocultas, ou evitavam prudentemente traçar entre a lei de Moisés e o Evangelho de Jesus uma nítida linha divisória, nem assumiam atitude tão desassombrada como Estevão e seus amigos. Havia um partido mais radical, outro mais tolerante.

            Bem sabia Saulo que Damasco era o foco do radicalismo pró-Nazareno.

            Em Jerusalém vivia Tiago, universalmente conhecido como amigo e respeitador da lei mosaica, alvo da admiração de Israel.

            De súbito — um fulgor estranho — uma claridade intensa!…

            Saulo jaz em terra…

            No meio da luz, divisa o semblante de um “homem celeste” ( l Cr. 5,48)… um par de olhos profundos, cheios de eternidade, se cruzam por um momento com as pupilas de Saulo…

            E logo depois — completa escuridão…

            E, no meio dessa noite em pleno meio-dia, percebe ele um brado ingente como o rolar do trovão:

            “Saulo!… Saulo!…”

            E depois, como a voz plangente de incompreendido amor, tremula pelo espaço o eco longínquo duma voz misteriosa:

            “Por que me persegues?…”

            Saulo levanta os olhos, crava no céu as órbitas – e nada enxerga…

            Cegueira completa…

            E pelas trevas meridianas vibra firme e viril, esta pergunta:

            “Quem és tu, senhor, a quem eu persigo?”

            Momentos de silêncio… Instante de indizível angústia… Transes de ansiosa expectativa…

            Saulo, sempre plenamente ele mesmo, quer saber quem é esse invisível acusador. Está pronto a servir a um “Senhor” que tenha o direito de lhe dar ordens; mas não está disposto a se render a um desconhecido, a um Ser anônimo, talvez a algum fantasma quimérico. A vigilante vontade de Saulo resiste até ao momento supremo. Não cede senão à verdade insofismável, à inegável evidência. Eminentemente racionalista, exige o derrotado que o seu misterioso vencedor se declare, se identifique, apresente as suas credenciais. A inteligência de Saulo, a sua vontade só se renderão a um “mais inteligente”, a um “mais poderoso…”

            “Quem és tu, senhor?”

            Oh! Inaudita temeridade!

            O nada pede uma definição ao Todo.

            E o Todo, lá das alturas, se define ante o nada, que jaz prostrado no pó, cego, aniquilado…

            “Eu sou Jesus a quem tu persegues…”

            Jesus vive! — foi esta a mais estupenda revelação da vida de Saulo. Estevão tinha razão… O Crucificado ressuscitara… Vivia… Este pensamento fuzila como um relâmpago pela escuridão daquele grande espírito.

            Desde então será esta a ideia central da vida de Paulo: Jesus redivivo!… O Crucificado ressurgiu dentre os mortos! Não adoramos um Cristo morto, uma múmia, uma relíquia do Cristo; não o Cristo do passado, da história, da Palestina — mas, sim, o Cristo vivo, presente, hoje e por todos os séculos…

            “Eu sou o Jesus a quem tu persegues…”

            Foi o momento trágico…

            Foi o golpe fatal…

            Neste instante, ruiu ferido de violento terremoto, o soberbo palácio da teologia judaica de Saulo, e sobre essas ruínas se levantaria o templo magnífico do cristianismo de Paulo.

            Como? Ele perseguia os discípulos do Cristo – e o Nazareno afirma que Saulo persegue a ele em pessoa?… Logo, Jesus e seus amigos são um e o mesmo.

            De relance, à beira da estrada de Damasco, nasceu na alma de Paulo a ideia sublime do “corpo místico do Cristo”, ideia que ele, mais tarde, defenderia em todas as suas epístolas.

            No meio dessas reflexões que tumultuavam na alma de Saulo, tornou a falar a voz do alto, proferindo palavras repletas de mistério:

            “Duro te é recalcitrar contra o aguilhão”!…

            O aguilhão!?…

            Saulo compreendeu tudo… Havia tempo, sobretudo desde aquele olhar derradeiro de Estevão agonizante, sentia ele cravada na alma; qual doloroso espinho, uma dúvida cruel. A dúvida na virtude redentora da lei mosaica. Espírito observador, não fugira à sua perspicácia a diferença que ia entre a piedade artificial, o formalismo complexo do israelita, por um lado — e a espontânea e serena espiritualidade dos discípulos do Nazareno, por outro. A lei mosaica, pautada pelo imperativo categórico do dever, filho do terror — e o espírito evangélico do querer, oriundo do amor… O israelita, máxime o fariseu, vivia peado por uma inextricável teia de preceitos — eram, segundo Gamaliel, 248, além de 346 proibições! Acresciam a isto inumeráveis conselhos e diretivas orais, cada um dos quais afetava a consciência com maior ou menor gravidade.

            Em face desse caos formalístico da religião judaica, sentia-se Saulo impressionado pela encantadora simplicidade religiosa dos discípulos do Nazareno. Amavam a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmos — eis aí a sua religião! Todos os mais atos dimanavam, com espontânea naturalidade, dessas fontes eternas da mística e da ética.

            Desde a morte de Estevão era a alma de Saulo um campo de batalha. Abraçar o Evangelho?… Mas como podia Jesus ser o Messias, se sucumbira à morte?… Que seria da sua religião sem a presença do Mestre?… Não desapareceria em breve da face da terra?…

            Saulo “recalcitrava” contra o aguilhão. A imagem é tomada do boi que puxa o carro, e, estimulado pelo acicate, contra ele se defende, escoiceia e recusa obedecer. Assim a alma de Saulo. Não queria ceder, não se queria render ao impulso da graça. A sua índole intelectualista, a sua razão judaica e humana relutava contra a ideia de um Messias morto, um Deus crucificado, um Redentor justiçado por um juiz pagão, a título de criminoso.

            O orgulho farisaico do doutor da lei levantara uma barreira imensa à graça divina.

            Eis senão quando esse mesmo Jesus morto lhe aparece vivo! O Crucificado, glorioso!… O Nazareno, a continuar a sua obra na pessoa dos seus discípulos!…

            “Por que me persegues?”

            “Quem és tu, Senhor?”

            “Eu sou Jesus!…” Não recalcitres! Rende-te, Saulo!… Tem fé em mim, sê fiel a mim, porque sou vivo – redivivo! E estarei com os meus até a consumação dos séculos…

            Diante desses fulgores divinos desmaiam todas as luzes humanas…

            Abertos os olhos do espírito, fechou Saulo os olhos corpóreos…

            Estava cego…

            Era um vidente…

Á SOMBRA DO ONIPOTENTE

Aquietai-vos e sabeis que eu sou Deus.      Salmo 46-10

                 A Sagrada Escritura está repleta de promessas de segurança para aqueles que vivem conscientemente na presença de Deus. Testifica de um Deus que está ao nosso alcance em todas as situações e circunstâncias da vida; mas não promete ao mundo imunidade de catástrofes – de terremotos e enchentes, de incêndios. Enquanto viverem homens nesta terra nunca deixarão de experimentar os efeitos desastrosos do modo de pensar materialista do mundo. Mas a promessa é clara: no meio da fome, das inundações, dos incêndios, das guerras, das bombas, os que vivem em Deus passarão por tudo isto sem serem de modo algum atingidos por essas coisas. Donde vem essa diferença? Por que serão eles preservados das catástrofes do mundo?

         Do livro “A Arte de Curar pelo Espírito” de Joel Goldsmith – tradução de Huberto Rohden.

Vale a pena ler e reler este belo livro.

CONVÍVIO COM A NATUREZA

Os hábitos fazem o monge. Quem está acostumado com ruas barulhentas, poluição sonora, visual e do ar, agitação… dificilmente se adapta a um meio rural. O oxigênio o perturba. O silêncio é um tormento.

As necessidades de consumo nunca se esgotam. Mais gasolina, mais combustível vegetal, mais energia elétrica, mais bateria com poluentes de todos os tipos. Nada basta a satisfazer os insaciáveis e inquietos. Mais rios estão sendo represados e com eles florestas inteiras morrem no fundo das águas. As águas caem das nuvens e inundam as ruas, correndo para os rios poluídos; levam consigo todo o lixo jogado nas ruas cujo destino é o mar imenso. Não é só o lixo das praias que vai para o mar. As enxurradas não se infiltram no asfalto. Varrem as ruas levando tudo que é indigesto para o estômago da fauna marinha. Nem preciso citar a ameaça que a exploração do petróleo marítimo pode causar.

Nasci numa propriedade rural de Minas Gerais. Era um lindo vale cercado de montanhas com fascinantes contornos. Havia um ribeirão caudaloso a correr pelo vale. Suas águas tão claras e limpas podia-se beber. A natureza pródiga se incumbia de filtrá-la com o cascalho e seixos roliços do fundo do leito. Líquidos corredeiros seguiam cantantes, na alegria de se doar e saciar a sede de toda espécie de ser vivo. Passando pela pinguela ou brincando nas águas, nós crianças nos divertíamos de um modo bem salutar.

Hoje o sertão virou mar, diz alguém que teima em viver na redondeza. O Ribeirão foi inundado pelas águas do Rio Quebra-anzol onde desembocava. Virou represa.

Não posso lamentar ter-me mudado do berço natal, quando meus pais resolveram procurar escola para educar os filhos. De qualquer forma teria de ser expulsa de lá um dia, como acontece hoje e sempre que o governo resolve construir uma nova barragem.

Motivo maior para não me queixar é que a avezinha de minha alma ansiava por algo que não sabia o quê e só mais tarde pôde saber. Haveria esta avezinha de emigrar num outro terreno completamente contrário ao daquela criança de roça.  Tinha de entender o mundo, ultrapassar as barreiras, sondar os mistérios da vida e compartilhar com outras almas as mesmas respostas.

No meu encontro com Rohden e sua filosofia iniciei uma jornada inacabada. O livro da natureza dentro e fora de mim me dá lições e mais lições. O que falta para melhorar o mundo dos homens e do planeta azul em que habitamos?

Nada mais que isto: Aquiete-se Diz o salmista. Ouça a sua voz interior, o Cristo interno sempre presente, aprenda a conviver com a natureza.  Desperte a alvorada dentro de ti. Lembre-se que a noite termina com uma bela alvorada. Precisamos de muitas almas renascidas pelo espírito para orientar os homens que perderam os seus caminhos e até seus endereços.

 

DOCUMENTO: OBRIGADO PROFESSOR ROHDEN!

Publico aqui documento encontrado pela aluna Sira da Silva em seus arquivos:

OBSERVAÇÃO: A COLEGA SIRA RECOMENDA A LEITURA DO MARAVILHOSO  LIVRO “POR UM IDEAL” – AUTOBIOGRAFIA DE HUBERTO ROHDEN.

Para quem já leu, tenho  outro documento encontrado. Para entendê-lo, é preciso conhecer toda a tragetória de Rohden.

Peça por email: ihgomes@hotmail.com

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