
Hoje, aniversário da maior metrópole do Brasil, a cristandade comemora a conversão de São Paulo, o grande apóstolo que deu nome à cidade.
Não conheço melhor descrição deste fato do que estas páginas de Huberto Rohden no seu livro: “Paulo de Tarso”.
Às Portas de Damasco
(At. 9, l ss; cf. At. 22, 5, ss; 26, 12 ss; l Cr.
15,7; 9, 1; 2 Cr. 4,6; Gl l, 12, 15 s; Ef. 3, 3;
Fp. 3, 12; Tm. 1,9)
Corria o ano 34 ou 35 da nossa era.
Meio-dia.
Espessa nuvem de poeira se levanta na extensa planície da Síria, limitada, mais além, pelas fraldas do Antilíbano.
Ao longe aparecem, por entre verdejantes pomares e tamareiras, umas cúpulas brancas, uma floresta de esguios minaretes; grupos maiores e menores de casas se avistam.
Damasco!
A fulminante caravana estimula as cavalgaduras. Velozes deslizam sobre as brancas areias as sombras fugazes dos camelos.
À frente de todos, um homem em pleno vigor da idade. De estatura média e compleição franzina, domina todos os mais com a potência do seu espírito e o vigor da sua vontade. Vem munido de documentos do Sinédrio; está autorizado a prender todos os adeptos do Crucificado, homens, mulheres e crianças, que em Damasco encontrar. Organizara-se em Jerusalém uma espécie de “tribunal de inquisição”, que tinha por fim reprimir a crescente influência dos “nazarenos”, e Saulo, o mais ardoroso defensor das tradições paternas, fora investido do cargo de “inquisidor-mor”. Tinha carta branca. Podia invadir as casas, de dia e de noite, dar buscas e devassas, empregar torturas e instrumentos de suplício, que não faltavam nos subterrâneos das sinagogas (At. 26,11). Flagelações com “40 golpes menos l” estavam na ordem do dia.
Os cárceres de Jerusalém regurgitavam de adeptos do Nazareno. Se ainda existiam na capital, discípulos do Crucificado, viviam às ocultas, ou evitavam prudentemente traçar entre a lei de Moisés e o Evangelho de Jesus uma nítida linha divisória, nem assumiam atitude tão desassombrada como Estevão e seus amigos. Havia um partido mais radical, outro mais tolerante.
Bem sabia Saulo que Damasco era o foco do radicalismo pró-Nazareno.
Em Jerusalém vivia Tiago, universalmente conhecido como amigo e respeitador da lei mosaica, alvo da admiração de Israel.
De súbito — um fulgor estranho — uma claridade intensa!…
Saulo jaz em terra…
No meio da luz, divisa o semblante de um “homem celeste” ( l Cr. 5,48)… um par de olhos profundos, cheios de eternidade, se cruzam por um momento com as pupilas de Saulo…
E logo depois — completa escuridão…
E, no meio dessa noite em pleno meio-dia, percebe ele um brado ingente como o rolar do trovão:
“Saulo!… Saulo!…”
E depois, como a voz plangente de incompreendido amor, tremula pelo espaço o eco longínquo duma voz misteriosa:
“Por que me persegues?…”
Saulo levanta os olhos, crava no céu as órbitas – e nada enxerga…
Cegueira completa…
E pelas trevas meridianas vibra firme e viril, esta pergunta:
“Quem és tu, senhor, a quem eu persigo?”
Momentos de silêncio… Instante de indizível angústia… Transes de ansiosa expectativa…
Saulo, sempre plenamente ele mesmo, quer saber quem é esse invisível acusador. Está pronto a servir a um “Senhor” que tenha o direito de lhe dar ordens; mas não está disposto a se render a um desconhecido, a um Ser anônimo, talvez a algum fantasma quimérico. A vigilante vontade de Saulo resiste até ao momento supremo. Não cede senão à verdade insofismável, à inegável evidência. Eminentemente racionalista, exige o derrotado que o seu misterioso vencedor se declare, se identifique, apresente as suas credenciais. A inteligência de Saulo, a sua vontade só se renderão a um “mais inteligente”, a um “mais poderoso…”
“Quem és tu, senhor?”
Oh! Inaudita temeridade!
O nada pede uma definição ao Todo.
E o Todo, lá das alturas, se define ante o nada, que jaz prostrado no pó, cego, aniquilado…
“Eu sou Jesus a quem tu persegues…”
Jesus vive! — foi esta a mais estupenda revelação da vida de Saulo. Estevão tinha razão… O Crucificado ressuscitara… Vivia… Este pensamento fuzila como um relâmpago pela escuridão daquele grande espírito.
Desde então será esta a ideia central da vida de Paulo: Jesus redivivo!… O Crucificado ressurgiu dentre os mortos! Não adoramos um Cristo morto, uma múmia, uma relíquia do Cristo; não o Cristo do passado, da história, da Palestina — mas, sim, o Cristo vivo, presente, hoje e por todos os séculos…
“Eu sou o Jesus a quem tu persegues…”
Foi o momento trágico…
Foi o golpe fatal…
Neste instante, ruiu ferido de violento terremoto, o soberbo palácio da teologia judaica de Saulo, e sobre essas ruínas se levantaria o templo magnífico do cristianismo de Paulo.
Como? Ele perseguia os discípulos do Cristo – e o Nazareno afirma que Saulo persegue a ele em pessoa?… Logo, Jesus e seus amigos são um e o mesmo.
De relance, à beira da estrada de Damasco, nasceu na alma de Paulo a ideia sublime do “corpo místico do Cristo”, ideia que ele, mais tarde, defenderia em todas as suas epístolas.
No meio dessas reflexões que tumultuavam na alma de Saulo, tornou a falar a voz do alto, proferindo palavras repletas de mistério:
“Duro te é recalcitrar contra o aguilhão”!…
O aguilhão!?…
Saulo compreendeu tudo… Havia tempo, sobretudo desde aquele olhar derradeiro de Estevão agonizante, sentia ele cravada na alma; qual doloroso espinho, uma dúvida cruel. A dúvida na virtude redentora da lei mosaica. Espírito observador, não fugira à sua perspicácia a diferença que ia entre a piedade artificial, o formalismo complexo do israelita, por um lado — e a espontânea e serena espiritualidade dos discípulos do Nazareno, por outro. A lei mosaica, pautada pelo imperativo categórico do dever, filho do terror — e o espírito evangélico do querer, oriundo do amor… O israelita, máxime o fariseu, vivia peado por uma inextricável teia de preceitos — eram, segundo Gamaliel, 248, além de 346 proibições! Acresciam a isto inumeráveis conselhos e diretivas orais, cada um dos quais afetava a consciência com maior ou menor gravidade.
Em face desse caos formalístico da religião judaica, sentia-se Saulo impressionado pela encantadora simplicidade religiosa dos discípulos do Nazareno. Amavam a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmos — eis aí a sua religião! Todos os mais atos dimanavam, com espontânea naturalidade, dessas fontes eternas da mística e da ética.
Desde a morte de Estevão era a alma de Saulo um campo de batalha. Abraçar o Evangelho?… Mas como podia Jesus ser o Messias, se sucumbira à morte?… Que seria da sua religião sem a presença do Mestre?… Não desapareceria em breve da face da terra?…
Saulo “recalcitrava” contra o aguilhão. A imagem é tomada do boi que puxa o carro, e, estimulado pelo acicate, contra ele se defende, escoiceia e recusa obedecer. Assim a alma de Saulo. Não queria ceder, não se queria render ao impulso da graça. A sua índole intelectualista, a sua razão judaica e humana relutava contra a ideia de um Messias morto, um Deus crucificado, um Redentor justiçado por um juiz pagão, a título de criminoso.
O orgulho farisaico do doutor da lei levantara uma barreira imensa à graça divina.
Eis senão quando esse mesmo Jesus morto lhe aparece vivo! O Crucificado, glorioso!… O Nazareno, a continuar a sua obra na pessoa dos seus discípulos!…
“Por que me persegues?”
“Quem és tu, Senhor?”
“Eu sou Jesus!…” Não recalcitres! Rende-te, Saulo!… Tem fé em mim, sê fiel a mim, porque sou vivo – redivivo! E estarei com os meus até a consumação dos séculos…
Diante desses fulgores divinos desmaiam todas as luzes humanas…
Abertos os olhos do espírito, fechou Saulo os olhos corpóreos…
Estava cego…
Era um vidente…